Nesta página
- Os campos da receita de óculos, um por um
- Esférico, cilíndrico e eixo: como ler a linha de cada olho
- Adição e grau de perto
- DNP e prisma: os campos que mais geram retrabalho
- Transposição do cilindro: mesma lente, outra forma de escrever
- O que o balcão não pode fazer com a receita
- Checklist de conferência antes de orçar
- Onde o Otikos entra
- Perguntas frequentes
Os campos da receita de óculos, um por um
Toda receita de óculos segue a mesma lógica, mesmo quando o desenho do formulário muda de um consultório para outro. São linhas por olho e colunas por tipo de correção. As definições abaixo seguem o guia de como ler a receita de óculos da All About Vision, com revisão médica, e materiais de ensino de óptica oftálmica citados ao longo do texto.
| Campo | O que significa | Exemplo |
|---|---|---|
| OD / OE | Olho direito e olho esquerdo. AO, quando aparece, quer dizer ambos os olhos | Primeira linha OD, segunda linha OE |
| Longe / Perto | Correção para enxergar à distância e para leitura | Perto pode vir preenchido ou indicado só pela adição |
| Esférico (ESF) | Potência principal da lente, em dioptrias. O sinal de menos e o de mais mudam o tipo de lente | -2,25 ou +1,50 |
| Cilíndrico (CIL) | Potência extra para corrigir astigmatismo. Em branco, não há correção de astigmatismo | -0,75 |
| Eixo | Direção em que o cilíndrico atua, de 1 a 180 | 180 |
| Adição (AD) | Potência sempre positiva somada ao grau de longe para enxergar de perto | +2,00 |
| DNP | Distância de cada pupila até o centro do nariz, em milímetros | OD 32 / OE 31 (exemplo) |
| Prisma e base | Potência prismática em dioptrias prismáticas (Δ) e a direção da base | 1,0 Δ base nasal (exemplo) |
Duas regras de leitura evitam metade dos erros de quem está começando: o sinal vem sempre antes do número ("-0,75", nunca "0,75-"), e o eixo é escrito sem o símbolo de grau, justamente para não ser confundido com um zero, como explica o material Introduction to Ophthalmic Optics, da Carl Zeiss Vision.
Esférico, cilíndrico e eixo: como ler a linha de cada olho
O esférico é a potência que vale para a lente inteira, medida em dioptrias (D). Pelo guia da All About Vision, o sinal de menos aparece na correção de miopia e o sinal de mais (ou a ausência de sinal) na de hipermetropia. Para o balcão, o que importa é transcrever o sinal certo: trocar "+" por "-" produz outra lente.
O cilíndrico é uma potência adicional que age em uma direção só, usada para astigmatismo. Pode vir com sinal de menos ou de mais, conforme a forma como o profissional escreve. Se a coluna estiver vazia ou com um traço, a lente não tem correção cilíndrica naquele olho.
O eixo só existe quando há cilíndrico. Ele vai de 1 a 180 e indica a direção em que o cilindro atua: 90 é a vertical e 180 a horizontal. Cilíndrico sem eixo, ou eixo sem cilíndrico, é receita incompleta, e a ótica não deve completar por conta própria.
Exemplo de leitura: "OD -1,50 -0,75 x 180" quer dizer olho direito, esférico -1,50, cilíndrico -0,75 com eixo 180. "OE +0,50" sozinho quer dizer olho esquerdo, esférico +0,50 e nenhum cilíndrico. Os números são só para treinar a leitura.
Adição e grau de perto
A adição é uma potência positiva que se soma ao grau de longe para a visão de perto, comum em lentes multifocais e bifocais. Pelo material da Carl Zeiss Vision citado acima, quando o cliente quer óculos só de leitura, o grau de perto de cada olho se calcula somando a adição ao esférico de longe e mantendo o mesmo cilíndrico e o mesmo eixo.
Exemplo de conta: longe "OD -1,00 -0,50 x 90" com adição +2,00 dá, para perto, "OD +1,00 -0,50 x 90" (porque -1,00 + 2,00 = +1,00). O cilíndrico e o eixo não mudam. Se a receita já trouxer a linha de perto preenchida pelo profissional, use o que está escrito e confira se bate com a conta; se não bater, a dúvida volta para quem prescreveu.
Receita com adição costuma abrir a conversa sobre multifocal. Como explicar a adaptação sem prometer o que a lente não entrega está em como vender lente multifocal.
DNP e prisma: os campos que mais geram retrabalho
A DNP (distância naso-pupilar) é a medida, em milímetros, de cada pupila até o centro do nariz. É monocular: um valor para o OD e outro para o OE, porque os dois lados nem sempre são iguais. Um estudo publicado no The Scientific World Journal encontrou assimetria entre os lados na maioria das pessoas avaliadas e alerta que ignorar isso pode descentralizar a lente, principalmente nas progressivas.
O motivo é óptico: se o centro óptico da lente não coincide com a linha de visão, surge um efeito prismático, maior quanto mais forte o grau, como descreve um trabalho da UNIFESP nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia. A conta usada em óptica é a regra de Prentice, ensinada na revisão de óptica da Universidade de Iowa: dioptrias prismáticas = deslocamento em centímetros x potência da lente.
Nem toda receita traz a DNP. Quando não traz, a ótica mede na hora, com régua ou pupilômetro, e registra o valor na ordem de serviço. Já o prisma é diferente: quando aparece, ele foi prescrito, vem com o valor em Δ e a direção da base (nasal, temporal, superior ou inferior) e deve ser transcrito exatamente como está.
Transposição do cilindro: mesma lente, outra forma de escrever
A mesma correção pode ser escrita com cilíndrico negativo ou positivo, conforme o equipamento e o hábito de quem examinou. Na fabricação, a forma de cilindro negativo é a preferida, como explica o material da Carl Zeiss Vision. Converter uma forma na outra se chama transposição e não altera o grau. A regra, que aparece igual na revisão da Universidade de Iowa e no material da Zeiss, tem três passos:
- Novo esférico: some o esférico com o cilíndrico, respeitando os sinais.
- Novo cilíndrico: mantenha o mesmo valor e troque o sinal.
- Novo eixo: gire 90. Se o eixo for 90 ou menos, some 90; se for maior que 90, subtraia 90.
Exemplo da própria revisão de Iowa: "+2,50 +3,50 x 95" vira "+6,00 -3,50 x 5" (2,50 + 3,50 = 6,00; o cilindro troca de sinal; 95 menos 90 dá 5). Outro exemplo, para treinar: "-1,00 -0,50 x 180" vira "-1,50 +0,50 x 90" (-1,00 - 0,50 = -1,50; o cilindro passa a +0,50; 180 menos 90 dá 90).
No balcão, a transposição serve para conferir: comparar uma receita nova com os óculos antigos, ou checar se o pedido ao laboratório e a receita descrevem a mesma lente. Ela não serve para "ajustar" nada. Na dúvida, o pedido vai com a receita exatamente como foi escrita e a conversão fica com o técnico responsável.
O que o balcão não pode fazer com a receita
Ler a receita é tarefa do balcão; interpretar a visão do cliente não é. O Decreto 24.492/1934 atribui ao óptico prático o "aviamento perfeito" da fórmula (art. 9º) e, no art. 13, proíbe a equipe da ótica de escolher, indicar ou aconselhar o uso de lentes de grau. O texto traz a anotação "Vide ADPF 131", e o alcance de quem examina e prescreve está explicado em optometrista na ótica e a decisão do STF. Confirme a regra que vale para a sua loja com advogado e vigilância sanitária local.
- Não mude o grau, nem "arredonde" um valor, nem tire o cilíndrico porque o cliente achou a lente cara.
- Não complete campo em branco com palpite: eixo, adição ou prisma faltando voltam para quem prescreveu.
- Não interprete saúde: frases como "seu grau aumentou muito" ou "isso é sinal de tal coisa" não cabem no balcão.
- Não avie receita ilegível: se não dá para ler um número ou um sinal com segurança, peça confirmação.
- Não exponha a receita: grau é dado de saúde, tratado como dado sensível pela LGPD. Foto de receita não circula em grupo de WhatsApp da equipe.
Quando o cliente pergunta "meu grau está alto?", a resposta honesta é: "Quem pode avaliar é o profissional que fez o exame. Aqui eu garanto que a lente vai sair exatamente como ele prescreveu."
Checklist de conferência antes de orçar
Use esta sequência com todo vendedor novo até virar hábito. Ela leva menos de dois minutos e evita a lente refeita, que custa laboratório, prazo e confiança:
- Confira nome do cliente, data da receita e identificação do profissional.
- Leia OD e OE em voz alta, com sinal, valor e eixo, e peça para outra pessoa conferir a transcrição.
- Verifique se todo cilíndrico tem eixo e se não há eixo sobrando sem cilíndrico.
- Procure adição, linha de perto e prisma; se houver prisma, anote valor e base.
- Confira se a DNP veio na receita ou precisa ser medida, e registre o valor na ordem de serviço.
- Compare com a receita anterior do cliente, se houver, para pegar erro de digitação (não para avaliar grau).
- Só então monte o orçamento da lente adequada ao que foi prescrito.
Esse cuidado rende mais quando a receita fica guardada no cadastro do cliente e ligada à venda, e não numa gaveta. Como organizar isso está em como controlar receitas e estoque na ótica e no guia de sistema de gestão para óticas.
Onde o Otikos entra
No Otikos, a IA de Atendimento no WhatsApp lê a foto da receita que o cliente manda para apoiar o orçamento, sem diagnóstico, e agenda o exame quando a pessoa ainda não tem receita. No ERP, a venda é lançada vinculada ao cliente, à receita e ao pagamento, e daí saem a ordem de serviço e o pedido ao laboratório. A conferência humana do checklist continua valendo. O panorama do que a IA já faz numa ótica está no guia completo de IA para óticas.
Perguntas frequentes
Como ler a receita de óculos?
Separe as linhas OD (olho direito) e OE (olho esquerdo). Em cada uma, leia o esférico, o cilíndrico e o eixo; depois veja se há adição para perto, DNP e prisma com a base.
O que significa esférico e cilíndrico na receita?
O esférico é a potência principal da lente, em dioptrias. O cilíndrico é uma potência extra que corrige astigmatismo e sempre vem acompanhada de um eixo. Coluna vazia quer dizer sem correção daquele tipo.
O que é o eixo na receita de óculos?
É a direção em que o cilíndrico atua, escrita de 1 a 180, sem o símbolo de grau. 90 é a vertical e 180 a horizontal. Só existe eixo quando existe cilíndrico.
O que é adição na receita de óculos?
É uma potência positiva somada ao grau de longe para enxergar de perto. Para óculos só de leitura, soma-se a adição ao esférico e mantêm-se cilíndrico e eixo.
O que é DNP na receita de óculos?
É a distância naso-pupilar: a medida, em milímetros, de cada pupila até o centro do nariz. Ela centraliza a lente; se a receita não trouxer, a ótica mede.
A ótica pode mudar o grau da receita?
Não. A ótica avia a receita como foi escrita. Pode transpor o cilindro, que é outra forma de escrever a mesma lente, mas dúvida ou campo faltando volta para quem prescreveu.



